Saturday, 14 September 2013

CAROLINA

 

Carolina



"Degradou. A doida agora só respeita ricaço, só fala em viver intensamente.
Diz 'fantastique' como quem flatula.
Aposto, em um mês ela me procura! Mandou cartão do Louvre, Paris, cheri... já sei, é pra
garantir a transa-matinê, que venha! Deixo a marca dos meus beijos naquele pescoço só
pro ricaço ver como é que eu trato dela. Aposto que ele tem uma verruga no lugar do
pau!
Antes, Carolina sussurrava no meu ouvido os poemas do Lorca, ela ama o Lorca! O
lençol deslisando ombros, seios, o púbis encrespando a seda, ah aquelas mãos...

` ... La luna es un pozo chico,
las flores non valen na-da!

lo que valen son tus brazoz,
quando de noche me abrazan... '

fazia como a cigana passional, aquela voz contralto, mão esquerda espalmada, a direita
cerrada, em pé sobre a mesa...

‘ … Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde...
... la muerte puso huevos en la herida...
a las cinco en punto de la tarde...

...Ay qué terribles cinco de la tarde!’
Não me lembro mais do poema todo, ela carregou a pôrra do livro.
Um fogo invadia nossa cama, Carola usava meus braços à guiza de rédeas, viajava, e eu morria.
Em TPM, ela lia alto Bakunin, Evtutchenko, Plínio Marcos. Mas decór e nua, só o Lorca... maldita! me usava como fio-terra do tesão dela por poeta morto! Ela transa com Lorca, Neruda, Verlaine, Rimbaud. Ah, como é mesmo o nome daquele poeta português?
‘…vem por aqui, dizem-me alguns, certos de que eu os seguisse... ah é José Regio. E eu, cavalo nesse páreo?
Uma vez, paramos na frente dum ônibus pra ver o que aconteceria, o motorista mandando a gente tomar no... e nós, estátuas lívidas. Nunca um dia igual ao outro!
Quando ela fez trinta anos, fingi esquecimento e fomos ver o filme “Cria Cuervos”, do Saura. Dramática e muda, vestiu-se de luto, lenço na cabeça como quem vai pro cadafalso. Após o THE END”, ela sentou-se num degrau e repetia:
'Cria cuervos e ellos te sacarán los ojos...'
Antes que ela sacasse os meus ojos, arrastei Carola pra fora do cinema; meu presente de aniversário se declarava na enorme faixa entre-postes:
___________________________________________
 CAROLA AMADA , FELIZ ANO NOVO DE VIDA! 
____________________Joca___________________

O branco daqueles grandes olhos parecia que ia escorrer.
Agora, de Paris com outro ... Saudade mon amour??’ foda-se!
Quero vin-gan-ça!! Vou ser amante da irmã dela, fica tão grave que nunca mais!
Imagino as confidências. A maninha contando intimidades e Carola roendo unha até sangrar sobre o livro do Lorca, ou sobre a verruga do seu milionaire!
Beijarei minha ex-cunhada em público, darei presentes caros, grana eu arranjo trabalhando feito mula, aulas particulares de guitarra pra desafinados irreversíveis, pra peruas, executivos, agora, tocar em comício político só com paga adiantada, pôrra, Deus me defenda!
Ano passado, quando Carola me flagrou flertando com outra, se mandou. Ela flertando com todos os seus poetas...
Aí comprei um papagaio e levei mêses ensinando o bicho a cantar Carolina”, do Chico Buarque, sua única paixão viva. Que trabalheira me deu, mas o papagaio me adorava. Quando entreguei-o, ela capitulou. Depois, só porque usei a grana do aluguel pra comemorar a vitória do Brasil na Copa, e sumi uns dias pra criar coragem... foi aí que ela viajou com o verruga-de-ouro.
Antes de partir, a demônia deu o papagaio pra vizinha, ele agora grita, entre os versos:
- Arziraaaa, tô cum fome muiééé!
Pra não pirar recomprei o papagaio. Tá aqui meio doido, o coitado. Quando ele abre o bico me dói o rabo da alma. Sabe lá o que é desgravar um papagaio? Sabe lá o que é deletar esta dor?
Meu ódio turbinará a vingança... lua-de-mel com a cunhadinha em Cabo Frio, Rio de Janeiro, fotos, nus, bronzeados.
Imagino Carola chorando no armário, ela tem mania de chorar no armário. Antes eu dava colo até que o fim dos soluços e o sono viesse, pôrra! Agora ela que se afogue, não sou seu Jacques Cousteau!
Andava estranha, pensei que era TPM, mas a messalina não falava.
Às vezes ela me queria depois do almoço, fica fica, eu não ficava, aí
pintou o verrugouro, ts ts, vai ver ele sentiu meu cheiro nela, o viado !
Carolina se foi, olhar arrastado, intuindo o que eu ia passar, e agora o
Que fazer com o cheiro dela pela casa, ‘...under my skin...’ ?
Se eu pudesse, rebobinava o tempo e implorava,

- Carola, conta tudo pra mim...largar de beber ? Eu largo. O cara rico, Paris? Eu é que vou te amar no pico da Eifell sobre todas as luzes! vai sair no Le Monde, vai virar novela, a gente fica rico!
Aí, eu a tirava do armário e pedia pra ela conferir o que era seu
como no ‘Samba da Volta’ do Vinícius de Morais e juro, nunca mais ela ia chorar sozinha e trancada. Nem eu ia ficar assim, de borco, estraçalhado, chorando dentro deste armário, que por mais que eu negue, ainda é dela."